quarta-feira, 20 de setembro de 2017

LOST HORIZONS, HAJA FÉ!





















Os Lost Horizons, uma parceria anunciada em Julho entre Simon Raymonde (Cocteau Twins) e Richie Thomas (Dif Juz), tem vindo aos poucos a desvendar o disco "Ojalá" gravado com uma série de amigos e convidados. Ao primeiro e inebriante avanço "The Places We've Been" com a maravilhosa voz de Karen Peris dos The Innocence Mission juntam-se, para já, mais três pérolas que fazem adivinhar uma concentração sumarenta de canções: "Frenzy Fear" onde aparece o jovem britânico Hilang Child, "She Led Me Away" com Tim Smith dos Midlake a dar cartas e "Bones" com a participação poderosa de Beth Canon. Uma série de concertos na Europa está já marcada estando assegurada a contribuição de alguns destes vozeirões. O disco sai, finalmente, em Novembro!








CIRCUIT DES YEUX, DELÍCIA RECHEADA!





















A menina Haley Fohr não é propriamente uma desconhecida. Sob o nome de Circuit de Yeux já por cá andou a apresentar a sua música diversas vezes, a última das quais em Ponta Delgada no Festival Tremor de Abril passado, mas também esteve na primeira parte dos concertos de Bill Callahan em 2014 e em nome próprio, no ano seguinte, por Lisboa e Guimarães. Na oportunidade que tivemos de a ouvir à guitarra, precisamente abrindo para o ex-Smog na Casa da Música, surpreendeu-nos a sua voz mas, acima de tudo, uma composição maleável de originais nada convencional que joga numa estranheza deliciosa de variações e subtilezas que Tim Buckley certamente aprovaria e que a malograda Nico não desdenharia experimentar. Ao ouvir dois dos novos temas que Fohr escreveu para o álbum "Reaching For Indigo" a sair pela Merge Records no dia 20 de Outubro, percebe-se que essa talentosa capacidade de ultrapassar as regras resulta agora numa sonoridade épica e adesiva já muito distante dos simples acordes de uma guitarra e que ganha em "Black Fly", por exemplo, um momento incomparável e meditativo que demorou anos (e pessoas, como confessado) a terminar. Nota ainda para o excelente clip para "Paper Bag", preparado pela amiga Meg Remy das U.S. Girls. Certamente, uma das grandes delícias recheadas deste ano!




terça-feira, 19 de setembro de 2017

LEONARD COHEN, SAUDADE!





















Passaram mais de dez meses sobre a morte de Leonard Cohen e, na velocidade do dia-a-dia, acabamos sempre por não dar pela sua falta. Até que... A saudade bateu forte com o lançamento no dia de hoje de um video oficial para uma das sua grandes e últimas canções chamada "Leaving The Table" que faz parte do álbum "You Want It Darker" lançado logo após a sua triste partida. Um profético e corajoso testemunho sobre a morte, melhor, sobre como deixar este mundo pairando e dançando sobre todos nós. Prometido pela família está um concerto tributo agendado para o dia 4 de Novembro em Montreal e onde se anunciam as vénias de, entre outros, Elvis Costello, Feist, K.D. Lang ou Patrick Watson e onde seria um sacrilégio, dizemos nós, não comparecer o Rufus Wainwright para cantar o "Hallelujah".        


HOPE SANDOVAL, VELUDO SUBLIME!

Dura há já largos anos (desde 1988) um encantamento arrepiante sempre que Hope Sandoval decide derramar uma porção de veludo em qualquer canção onde pousa a sua voz. Nos Mazzy Star ou, mais recentemente, com os Warm Inventions, são muitos os exemplos desse feitiço que ganhou o ano passado um aliado chamado Kurt Vile em "Let Me Get There", elevando o dueto ao estado perfeito. Mas quando hoje escutamos a versão acústica do mesmo tema que está incluída num novo EP e que, de forma não oficial, deve ser escutada de imediato e sem qualquer interrupção, porra, lá se foi a preferência antiga e a tal perfeição... mesmo sem o parceiro, isto é ainda mais sublime! O disco, com edição em 10" de vinil através da própria editora Tendril Tales, inclui dois temas inéditos ("Sleep" e o tema título "Son Of a Lady") e já se encontra em venda online.




segunda-feira, 18 de setembro de 2017

UAUU #395

STAPLES E TWEEDY, PARCERIA INFALÍVEL!





















A aparente incongruência artística entre Mavis Staples e Jeff Tweedy irá ter mais uma prova inequívoca de validade com a edição do disco "If All I Was Was Black" em Novembro (há uma versão autografada já em pré-venda). Staples, a senhora do gospel e do soul com raízes mais que vincadas na tradição americana, alia-se novamente a Tweedy, o senhor da country e rock alternativo que consagrou os Wilco, repetindo uma colaboração antiga e frutífera que alcança agora um terceiro disco para o qual Tweedy escreveu onze temas, três deles em co-autoria. Há até um dueto prometido numa dessas canções ("Ain't No Doubt About It") sendo as líricas uma responsabilidade partilhada que reflecte os problemas raciais e sócio-políticos que a América enfrenta nos nossos dias e que, infelizmente, se repetem mais frequentemente. Aqui fica um primeiro e grande exemplo.      


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

JAY-JAY JOHANSON, TRÉGUA AO PIANO!














É hoje oficialmente lançado o disco "Bury The Hatchet" de Jay-Jay Johanson já por aqui anunciado e cujos treze temas estão disponíveis em pré-escuta. Há pedacinhos excelentes conhecidos - por exemplo, o aveludado "You'll Miss Me When I'm Gone" estava já no EP saído em Março - mas o disco embalador confirma um estado de forma superlativo em que o piano é mesmo a pedra de toque da viagem como se pode confirmar no tema título lançado como single no início do mês e que recebeu a primazia de um excelente video. Johanson estará em digressão nacional no próximo mês chegando a Braga e à esplendorosa sala do Theatro Circo no dia 14 de Outubro, sábado, uma oportunidade dourada para celebrar o 20º aniversário do álbum "Whiskey" e, pacificamente, escutar as novas canções.
Entretanto e numa colaboração sueca iniciada num encontro ocasional num bar moscovita, descobre-se um novo tema do álbum de Loney Dear também prontinho a levantar o pano. "Lilies", assim se chama a canção, recebeu a voz de Johanson no segundo coro e também a contribuição de S Carey, um ex-baterista de Bon Iver já com uma interessante carreira a solo. Prometedor! 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

DESTROYER, COMO RESISTIR?





















Os canadianos Destroyer são, para além de um exemplo de longevidade artística, um paraíso sonoro de difícil comparação ou semelhança. A cada disco, a mestria de Dan Bejar e aquele trompete a preceito e que só funciona mesmo neste contexto, fertilizam ainda mais uma colheita harmoniosa que se quer sempre vibrante. É o caso dos dois temas para já conhecidos do décimo segundo disco a sair pela Merge Records em Outubro e que foi simplesmente baptizado de "Ken" - Bejar explica o epíteto como uma referência obscura ao primeiro título do tema "The Wild Ones" dos Suede apesar de ter confessado que a banda inglesa nada tem a ver com o disco... Os Destroyer regressam a Portugal já a 24 de Novembro para o Mexefest alfacinha e, atendendo ao que se pode ouvir abaixo, a noite vai ser certamente irresistível.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

KING KRULE, O REI ESTÁ DE VOLTA!





















Há coisas que queremos e desejamos que nunca mudem apesar de Camões há muito ter sentenciado que "todo o mundo é composto de mudança tomando sempre novas qualidades"... No caso de Archy Marshall aka King Krule, a cara de miúdo tornou-se imutável mas a sua música, essa, lá está, parece incorporar novas dimensões qualitativas e visivelmente surpreendentes nos arranjos e nas trajectórias. Longe vão os tempos de arranque como testemunhamos in loco ali a meio da Rua Passos Manuel da Invicta e os passos de uma carreira maturada e cimentada ganham agora contornos de gigantismo com o álbum "The OOZ" a sair pela XL Recordings em meados de Outubro. As amostras em video complementam canções notáveis de talento e subtileza, dois exemplos que a editora juntou num 7" de vinil já disponível e apetecível e que antecipa uma digressão em nome próprio que talvez (suspiro!) acabe por chegar a uma sala por perto, prolongando o encantamento conseguido no anfiteatro de Coura no mês passado. Repetindo a dose de 2013, Krule aparece ainda ao lado dos amigos Mount Kimbie no novo álbum do duo inglês "Love What Survive" emprestando a sua inconfundível voz no tema "Blue Train Lines", mais um grande momento para o livro das condecorações!






terça-feira, 12 de setembro de 2017

LALI PUNA, REGRESSO EM PLENO!





















Já lá vão muitos anos (2002!) desde que o disco "Scary World Theory" dos alemães Lali Puna nos chegou aos ouvidos. A benção teve uma celebração suada numa noite longa em plena sala de dança do saudoso bar Triplex nos anos seguintes (2004 ou 2005?) e passamos obrigatoriamente a traçar o rasto à menina Valerie Trebeljahr, mentora de tão eficaz receita. Electrónica levezinha, electro-pop como se chamava na época, excelente para dançar e curtir sem sobressaltos que tinha em Markus Archer, um dos irmãos dos The Notwist, uma parceria cúmplice. Só é pena que o tal rasto se perca muito facilmente em tão poucos discos - "Faking the Books" de 2004 e "Our Inventions" de 2010 - e, por isso, a aparição ao fim de sete anos é mesmo de saudar! O regresso aos álbuns faz-se este mês com "Two Windows" onde colaboram, entre outros, Dntel e Mary Lattimore e onde Valerie assume as despesas da composição e a separação definitiva do amigo Archer. A produção repete o nome de Mario Thaler que tinha já trabalhado nos anteriores discos e há, para já, dois singles lançados, um deles uma surpreendente e irresistível versão de "The Bucket" dos Kings of Leon!



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

UAUU #394

3X20 SETEMBRO













NATALIE MERCHANT, EFEITO BORBOLETA!





















Havia em todos os discos dos 10 000 Maniacs um segredo escondido. Quando apareceram nos anos oitenta, era impossível ficar indiferente à voz de Natalie Merchant que percorria as canções e a sua vinda ao Pavilhão Infante Sagres em 1988 (1989?) para um concerto, sugeria, na altura, um milagre! Só que a fraca adesão de público e as condições técnicas do recinto deitaram por terra toda a subtileza da música e, desde aí, temos pela banda um ténue sensação de pena e distância. Contudo, fomos sempre capazes de separar o trigo do joio e a carreira a solo de Merchant dos últimos anos é o perfeito exemplo de uma reinvenção artística notável que culminou em Junho com a edição de uma colectânea retrospectiva de dez discos que a Nonesuch teve a coragem de pôr cá fora. Incluídos estão todos os discos a solo e uma imensidão de raridades e preciosidades, havendo entre eles um verdadeiro achado chamado "Butterfly", surpreendente álbum de estúdio preparado para um quarteto de cordas onde Merchant reinterpreta algumas das suas canções e apresenta ainda uma série de inéditos de forma magistral e mais que prontos para "bater as asas"...



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MY BRIGHTEST DIAMOND CINTILANTE!

O projecto Amazon Acoustics não é, certamente, inovador mas a simplicidade do processo continua plena de eficácia - registam-se em exclusivo versões acústicas de temas originais ou versões para venda online, um conjunto que alcança já mais de três horas de música entre sessenta artistas aderentes. Uma das últimas a integrar a selecção foi Shara Nova/My Brightest Diamond que, enquanto regista o álbum sucessor de "This Is My Hand" de 2014, teve tempo para escrever "Wish for The Moon", uma canção de amor numa guitarra acústica que se revela uma balada de impressionante contorno clássico e sedutor. Cintilante!  

WEYES BLOOD, SÃO VERSÕES SENHORES!


A menina Natalie Mering aka Weyes Blood já nos habituou a magníficas versões nos seus concertos - no nosso caso, caímos para o lado com "A Certain Kind" dos Soft Machine em Guimarães e com um arrepiante "Vitamin C" dos Can no último Primavera Sound - um hábito salutar, arrojado até tendo em conta alguma complexidade dos temas. Através da Mexican Summer, há agora um imperdível 7" de vinil onde se depositam duas destas pérolas, a saber, "Everybody's Talking" numa homenagem a Fred Neil numa canção imortalizada por Harry Nilsson e a referida cover de "A Certain Kind" dos Soft Machine. A prática e aparente registo destes temas realizou-se aquando da residência que Mering desenvolveu na Galeria Zé dos Bois lisboeta precisamente em Dezembro passado. Magnífico!



terça-feira, 5 de setembro de 2017

KELLEY STOLTZ, QUE AURA!

Temos pelo desenfreado Kelley Stoltz uma paixoneta musical incontornável que se adensa a cada disco novo. Há agora mais um de nome "Que Aura" lançado recentemente e cujo registo, juntamente com mais três (!), procedeu uma perninha surpreendente como guitarrista-ritmo nos Echo & The Bunnyman na última digressão que chegou a Vilar de Mouros em Agosto do ano passado (há videos que comprovam a sua presença por lá ao lado dos seus confessados heróis). Entre os originais do referido álbum novo, para além de um tema chamado "Tranquilo" e do primeiro single "Same Pattern", andamos já colados a uma canção soeighties de balanço irresistível! "Empty Kicks", pois então...      




NELS CLINE BEM ACOMPANHADO EM GUIMARÃES!
















Faz agora um ano que Nels Cline, o virtuoso guitarrista dos Wilco, cumpriu um desígnio antigo ao editar pela mítica Blue Note um projecto instrumental com uma hora e meia de duração a que chamou "Lovers". Entre composições próprias e versões de alguns standards e originais de gente tão diversa como Arto Lindsay ou Annette Peacock, a ideia sonora vagueia pela sempre apelativa temática do amor e do romance adequadamente orquestrada - que alguém etiquetou de mood music - e onde o gosto pelo jazz e também pela improvisação são meio caminho andado para a sedução. Pois bem, a experiência vai ser apresentada já em Novembro (dia 8) na abertura da 26ª edição do Festival de Jazz de Guimarães e na qual Cline terá a companhia da orquestra da cidade, momento que marca também a celebração dos cem anos da primeira edição discográfica de jazz, aniversário que se entranha no restante e eclético programa do festival. Já há bilhetes!



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

3X20 AGOSTO













ALEX CAMERON, A SEGUNDA VEZ!





















Aquando do memorável concerto do ano passado no Café Au Lait portuense, Alex Cameron confessou-nos durante o autógrafo obrigatório que o segundo disco estava já gravado e misturado e que sairia pela Secretly Canadian ainda em 2017. Claro que não será fácil suplantar "Jumpink The Shark", a estreia (ok, a reedição) em cheio pela mesma editora mas os sinais que agora começam a ser conhecidos de "Forced Witness" parecem ser animadores - um fresquinho dueto com Angel Olsen em "Stranger's Kiss" e "Candy May", o primeiro single já obrigatório na nossa extensa lista de verão. O artista e, certamente, o seu amigo saxofonista Roy, estarão pelo palco mais pequeno de Paredes de Coura a 19 de Agosto, último dia do festival.



quarta-feira, 26 de julho de 2017

CARLA BRUNI, HUMMMMM!





















E ao quinto álbum a italo-francesa Carla Bruni rende-se a clássicos pop e mainstream em inglês mas com um inconfundível "French Touch", nome propositadamente escolhido para dar nome à colecção. O primeiro single "Enjoy the Silence" dos Depeche Mode não está mal, o segundo, "Miss You" dos Stones em toada latina, parece irresistível e entre as restantes nove versões contam-se "Perfect Day" de Lou Reed, "The Winner Takes It All" dos Abba, "Crazy" de e com a ajuda de Willie Nelson e, pasma-se, "Highway to Hell" dos AC/DC! O disco foi produzido por David Foster, chairman da Verve Records que edita o disco em Outubro. Aqui ficam os videos disponíveis com assinatura de Fabienne Berthaud e Jean Baptiste Mondino, respectivamente...



UAUU #392

terça-feira, 25 de julho de 2017

MANTA ESTENDIDA PARA LYDIA AINSWORTH!

A décima primeira edição (xiii!) do Festival Manta no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães tem já data marcada! Para ouvir sentadinhos na relva há este ano Noiserv e a canadiana Lydia Ainsworth em formato trio a 1 de Setembro, sexta-feira, e no dia seguinte, sábado, teremos Lula Pena e Dead Combo, também em versão inédita a três com a inclusão do baterista Alexandre Frazão. Como sempre, entrada gratuita!


TUXEDO DE SECRETÁRIA!

YUSSEF DAYES+DUQUESA & CAVE STORY & RA-FA-EL+GRAVEYARD+JANKA NABAY & THE BUBU GANG, Milhões de Festa, Barcelos, 22 de Julho de 2017

Já lá vão dez anos desde que o Milhões de Festa de Barcelos começou a "derreter fronteiras". Impunha-se, assim, uma investida ao festival mais alternativo do país num dia onde o alinhamento parecia confirmar tal liquidez sonora a começar na razão principal da viagem - Yussef Dayes, jovem prodígio inglês que gravou com Kamaal Williams um grande disco negro de soul ou jazz funk. Veio sozinho, ou seja, a parceria é já passado mas a ajuda de um teclista e de um guitarrista/baixista permitiu confirmar todos os atributos e elogios numa hora em jeito de lição de bateria e a renovação saborosa de uma sonoridade sempre moderna.  



Sem surpresa, a brigada nacional em cima do palco não desiludiu. Há muita qualidade na construção de canções de Duquesa, Cave Story e ajuda de Ra-Fa-El, todos juntos, todos motivados em surpreender e arriscar misturas, reinterpretações ou alongamentos de temas alheios ou em nome próprio que se mostraram eficazes e até arrebatadores. Excelente e (mais) uma prova que a moderna música portuguesa é mesmo um caso sério de talento e diversidade!



Quanto aos suecos Graveyard, que tiveram o condão de juntar uma multidão em frente ao palco principal para ouvir hard rock sujo, ainda não entendemos as razões dos elogios. Um conjunto de trejeitos à Led Zepplin, seja a voz, sejam os solos de guitarra, são um insulto aos próprios Zepplin e o efeito esfumou-se sem fazer fogo numa sequência enfadonha de clishés e previsibilidades. Uma chatice...





Festa, melhor, o início da verdadeira festa de acordo com o estranho fuso horário do Milhões, só começou perto das duas da manhã. Da Serra Leoa veio Janka Nabay acompanhado por um trio de músicos naturais da Síria, Itália ou Havai que se juntam em Brooklyn para fazer Bubu Music, uma etnia musical que se entranha sem contemplações. A eficácia rapidamente foi notada anfiteatro acima numa agitação desinibida e imparável para a qual o festival está há muito vacinado e, seja como for, vocacionado. Foi sempre a "derreter"!    



terça-feira, 18 de julho de 2017

SHARON VAN ETTEN, PARCERIAS COMPATÍVEIS!

Entre rumores de um novo álbum para o próximo ano e consequente digressão, Sharon Van Etten tenta encontrar os desafios certos para a sua carreira sem desalinhar nas companhias. Assim e para além da colaboração já anunciada com os Lost Horizons, há ainda estas parcerias conhecidas :

- na primeira e respondendo ao apelo de David Lynch, a artista apareceu com a sua banda no "The Bang Bang Bar" no final do sexto episódio da nova temporada de "Twin Peaks" para interpretar a magnífica e, já agora, lynchiana canção "Tarifa" do disco "Are We There" de 2014. Entre outros, as Au Revoir Simone e os Chromatics também já compareceram no mesmo local:



- um outro diz respeito ao regresso de Lee Ranaldo com um trabalho de inéditos chamado "Electric Trim" gravado com a sua banda The Dust mas onde Etten ajuda nas vozes em seis das canções. É o caso de "New Thing", tema inspirado na obsessão colectiva de acumular "likes" na Internet e que tem agora um video supostamente alusivo ao tema;



- por fim, a inesperada voz de Etten está no regresso de Hercules & Love Affair chamado "Omnion" e que também é o nome de baptismo do álbum a editar no início de Setembro. A banda tem concerto marcado para o Lux Frágil lisboeta a 17 de Novembro próximo. Aqui fica o video dirigido pelos ingleses Crown & Owls.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

UAUU #391

MICAH P. HINSON, FOLK-ÓPERA... MODERNA!

A inspiração para o registo de um novo álbum Micah P. Hinson foi encontrá-la na história de uma família em tempos de guerra com os seus múltiplos defeitos e virtudes, desde o aparecimento do amor, do casamento e filhos até que surgem as traições e o suicídio. Dois anos de trabalho em Denison, Texas, resultaram em "Presents The Holy Strangers" a que Hinson chama uma "ópera folk moderna", um disco que estará cá fora em Setembro pela Full Time Hobby e que na versão em vinil terá a adição de um livro onde se conta toda a aventura. Segue-se uma intensa digressão com banda pela Europa e que só em Espanha têm cinco datas agendadas para o início de Novembro!




sexta-feira, 14 de julho de 2017

THE RADIO DEPT., NOVAS CANÇÕES, NOVA EDITORA!





















Aproveitando o embalo do disco "Running Out Of Love" de 2016, os suecos The Radio Dept. lançam agora um EP onde incluem versões alongadas e misturadas de "Teach Me to Forget", "We Got Game" e "Swedish Guns" mas também dois temas inéditos - "You're Not In Love" e "Just So" que é, ao que parece, também o nome de uma aventura inédita na edição própria de discos, embora este EP saia ainda hoje pela já habitual Labrador Records. Ouça-se!




quarta-feira, 12 de julho de 2017

BADBADNOTGOOD, GOODGOODNOTBAD!

Se andam na expectativa de encontrar uma compilação veraneante pronta a fazer que qualquer hora do dia tenha sempre um pôr-do-sol escusam de procurar mais! A quadragésima terceira edição da já mítica colectânea "Late Night Tales" foi atribuída aos miúdos canadianos BadBadNotGood e os temas escolhidos para a sequência sonora são uma verdadeira inspiração e, ao mesmo tempo, uma dádiva. Começando em Boards Of Canada e terminando em Lydia Lunch, o difícil é mesmo não repetir a audição incluíndo uma versão instrumental dos próprios BadBadNotGood de "To You" do mágico Andy Shauf, artista fetiche da banda. Lembra-se que quer os BadBadNotGod quer Andy Shauf estarão por Paredes de Coura em Agosto para fazer milagres...    





UAUU #390

LONEY DEAR, É DESTA?




















Em Novembro passado congratulamo-nos com o regresso anunciado dos Loney Dear através de um trabalho numerado como o sétimo e que se aproximava da porta de saída... Falso alarme! Apesar de existir até um primeiro avanço, o disco como se eclipsou entre contratempos notórios e uma editora que retirou o artista da sua lista sem aparente explicação. O pobre do Emil Svanängen desabafa agora que andou a "nadar sem ter onde se agarrar" mas que finalmente alcançou uma praia salvadora que dá pelo nome de Real World, casa de discos do âmbito da WOMAD de Peter Gabriel que contratou o sueco num defeso sentimental e, notoriamente, escurecido pela incerteza quanto ao seu potencial artístico. Assim, o tal disco já gravado e adiado verá finalmente a luz do dia em Setembro próximo e terá o título homónimo de Loney Dear. Para que conste! 



sexta-feira, 7 de julho de 2017

LOST HORIZONS, ASSIM SEJA!













Nos últimos vinte anos o nome de Simon Raymonde esteve intimamente ligado à criação e direcção da editora londrina Bella Union mas a fama vem já de mais longe. Nos Cocteau Twins ao lado de Robin Guthrie e Elizabeth Frazer, Raymonde foi baixista proeminente de uma banda mítica e onde fez uma série de amizades para a vida como a que foi crescendo com Richie Thomas dos Dif Juz, baterista que chegou a tocar com os Twins mas também com os Jesus & Mary Chain ou os Felt de boa memória. Os dois juntam-se agora sob o nome de Lost Horizons para um álbum a sair pela própria Bella Union no início de Novembro e onde reúnem uma série de amigos, muitos deles dessa época inconfundível que foram os anos oitenta mas também novos talentos reconhecidos como Marissa Nadler, Sharon Van Etten, Tim Smith (Midlake) ou Cameron Neal (Horse Thief). O primeiro avanço de "Ojalá", assim se intitula o disco, tem a inconfundível voz de Karen Peris dos The Innocence Mission, uma inédita colaboração fora do perímetro da banda e que nos deixa melancolicamente desarmados...

quinta-feira, 6 de julho de 2017

LAMBCHOP UNLIMITED!

Aquando do magnífico concerto dos Lambchop em Espinho em Janeiro passado, fizemos notar a versão, melhor, as versões de "The Hustle" com que a banda começou e terminou o serão, uma canção logo ali tornada um clássico pop. A variante em bruto e onde o piano ganha um protagonismo saboroso foi, entretanto, gravada em demo para um maxi que trouxemos do concerto mas que agora terá edição oficial sob o título de "The Hustle Unlimited" aludindo, certamente, aos The Love Unlimited Orchestra de Barry White tão ao gosto do pianista e humorista Tony Crow, o responsável pela brincadeira inicial. No lado B repousará uma versão de "When You Were Mine" de Prince o que torna a rodela ainda mais apetecível!



terça-feira, 4 de julho de 2017

UAUU #389

JAMES YUILL, É TEMPO DE MUDANÇA!

Não tem sido fácil a vida do britânico James Yuill. Depois de uma ascensão merecida à custa desse grande disco intitulado "Turning Down Water From Air" de 2007, só seis anos depois o one man band conseguiu editar a sequência obrigatória com "These Spirits", experiência obtida em regime pledge music mas que passou completamente despercebida. Insistindo no seu valor e potencial, Yuill foi-se entretendo com o projecto de remisturas Loframes mas o fito continuava a ser o mesmo - reunir condições para novo trabalho em nome próprio. De volta à sua editora Happy Biscuit Club e após quatro anos de intenso trabalho, chegou a hora de um terceiro álbum apropriadamente chamado "A Change In State" que estará cá fora no final do mês e que terá, para além dos formatos obrigatórios, uma edição inédita em vinil. Há ainda uma série de concertos agendados para Setembro pelo Reino Unido, tudo sinais que a mudança é mesmo para levar a sério!



segunda-feira, 3 de julho de 2017

FESTIVAIS DE VERÃO, MAS O QUE É ISTO?
















Afinal ainda há por aí muitos diáconos tipo José Cortes... hum, hum, não havia nexecidade! Para ler e deitar fora.

(RE)VISTO #67













SGT. PEPPER'S: A REVOLUÇÃO MUSICAL
Dir. de Francis Hardly, Apple Corps. Ltd, RTP1, Portugal, 30 de Junho de 2017
A ideia de um documentário comemorativo dos cinquenta anos de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" dos The Beatles destinado a televisão generalista sugere, à primeira vista, uma insistência nos clichés e imagens que nos fomos habituando a ver ou ler em tantos outros programas e revistas da especialidade. Mas o que compositor inglês Howard Godoall se deu ao trabalho de escrever é um guião diferente e bastante inovador sobre um álbum que parece infindável de pormenores, histórias e inspirações e, por isso, a revolução musical que dá título ao documento é mesmo um desafio que se acaba por provar com bastante pertinência e sem muitos truques. Peça a peça, instrumento a instrumento, canção a canção, ficamos absortos com a sequência escorreita dos factos e informações que, de forma simples e inédita (os instrumentos tocados em separado ou as conversas de estúdio são aqui utilizados na perfeição), nos agarram desde as duas peças extra iniciais ("Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane") até esse pedaço em miniatura chamado "A Day In The Life" que, como referido, é o espelho contido de todo um disco ainda e sempre notável. Não percam a oportunidade e andem lá para trás até sexta-feira na vossa caixa de televisão ou então sigam a ligação já disponível online. Não se vão arrepender.      

sexta-feira, 30 de junho de 2017

1 LIVRO E 111 DISCOS!
















Para comemorar os oitenta anos da rádio pública em Portugal, a Antena3 convidou uma série de radialistas, críticos, jornalistas, músicos ou investigadores a escolher e a justificar os discos marcantes desse período, contando, desta forma, uma história da música gravada e da rádio em paralelo. O volume de capa cartonada e design atraente chama-se "Cento e Onze Discos Portugueses. A Música na Rádio Pública" tem coordenação de Henrique Amaro e Jorge Guerra e Paz e conta com textos de, entre muitos outros, Ana Cristina Ferrão, Luís Filipe Barros, Álvaro Costa ou o inevitável Júlio Isidro numa edição da Afrontamento. Um projecto arriscado, mas de leitura obrigatória.      

WILL JOHNSON, UMA GRANDE CANÇÃO!

O mais que polivalente e talentoso Will Johnson lançou este ano mais um álbum a solo chamado "Hatteras Night, A Good Luck Charm", uma amostra do que pode e deve ser a música americana em diversas facetas. Mas por muitas voltas que o disco dê acabamos sempre a abrir a concha de uma pérola que anda lá pelo meio - "Filled With A Falcon's Dreams" tem tanto de sedução como de veludo, uma viciante canção que nos sugere os America e o Jonathan Wilson de mão dada a assobiar de contentes...

segunda-feira, 26 de junho de 2017

DUETOS IMPROVÁVEIS #201

ELTON JOHN & JACK WHITE
Two Fingers of Whiskey (John/Taupin)
Documentário "American Epic Sessions", 2017

sexta-feira, 23 de junho de 2017

UAUU #388

SARAH BELKNER + JFDR, Festival Gaia Todo Um Mundo, 17 de Junho de 2017

A tarde de calor até que convidava a um concerto informal ao ar livre, mas não tanto! O facto de o palco Bernardino estar instalado numa artéria inclinada com trânsito de autocarros, aceleras frenéticos entre turistas ocasionais e moradores indiferentes, condicionou em muito o valor das canções de Sarah Belkner. Elevada no seu altar cimeiro demasiado distante de quem a queria ouvir como deve ser, a jovem australiana ultrapassou, em parte, os constrangimentos sempre com um sorriso nos lábios tentando aproximar vontades e sensações mas o momento pareceu-nos, mesmo assim, um erro de programação certamente arrojado mas inconsequente. A rever, esperemos, numa próxima edição.    

   


O regresso de Jófríður Ákadóttir aka JFDR, que esteve recentemente em Espinho, teve, este sim, um cenário a condizer. A capela do Convento Corpus Christi, impecável no seu restauro e luminosidade, oferecia todas as condições para que os temas de Jófridur ganhassem altitude e leveza, mesmo que nalguns casos tenha sido perceptível na sua postura alguma amargura... Talvez a "separação" da irmã e do projecto Pascal Pinon explique parte da angústia que emana das canções extremamente pessoais e íntimas, como fez questão de confessar na introdução a cada uma delas, mas a sua música teve sempre o condão derradeiro de inverter essa melancolia num optimismo saboroso e sonhador.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

GARETH DICKSON, Armazém 22, Festival Gaia Todo Um Mundo, 16 de Junho de 2017

A presença de Gareth Dickson ao lado de Vashti Bunyan num memorável serão de 2015 deixou-nos muita água na boca. Desde aí, suspirávamos por uma oportunidade certeira de o ouvir num espaço aconchegante e de acústica perfeita, condições que finalmente e de forma surpreendente - e gratuita! - aconteceram em Gaia na passada sexta-feira. O Armazém 22 talvez merecesse mais gente mas o brilho da prestação de Dickson e a delicadeza da sua música encheram as medidas de todos aqueles que corajosamente aí acorreram mesmo que o horário não fosse o mais apelativo. Contudo, não há nem pode haver horas boas nem más para desfrutar de tamanha preciosidade sonora e o momento por si só confirmou que Gareth Dickson talvez seja hoje imbatível na aproximação ou recriação de um género musical sem idade nem prazo que aprendemos a amar de olhos fechados e mente sempre aberta. Inigualável!              

terça-feira, 20 de junho de 2017

3X20 JUNHO













Com atraso...

PRIMAVERA SOUND PORTO 2017: UM BALANÇO
















10 likes:

1. mais e melhores casa de banho a que se junta uma limpeza exemplar do recinto;

2. não sabíamos, mas o canal Arte transmitiu alguns dos concertos na íntegra! É por aqui

3. dez minutos Weyes Blood que valeram ouro. Chapeau!

4. a noite de aquecimento no feminino do Hard Club. Despretensiosa mas eficaz numa fórmula a repetir; 

5. em relação a edições anteriores, melhor o som da maioria dos concertos e, finalmente, em todos os palcos;

6. Shongoy Blues, sinónimo de festa e harmonia sem truques;

7. Arab Strap, uma "substituição" de luxo que muitos ignoraram, inclusive a imprensa presente que se diz atenta;
         
8. atendendo aos tempos de hoje, nada de incidentes, segurança discreta, polícia presente e visível;

9. a eficácia dos Metronomy e a grandeza de Justin Vernon/Bon Iver;

10. o parque, a praia, o rio, a cidade... o Porto, sempre imbatível!


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1. "a que horas é?" foi a pergunta que mais se ouviu já que este ano não houve horários distribuídos para pôr ao pescoço mas sim sim uma "app" para descarregar e é para quem quer. Ou seja, quem não tiver smartphone que se amanhe e leve os horários impressos de casa, mas gastou-se o dinheiro distribuindo um cartão para colocar ao pescoço com sei lá bem o quê, ah, era tal "app". Podiam ter lá posto os horários na mesma já que não os vimos afixados em nenhum lado como é (era?) obrigatório;

2. a dimensão do palco para Angel Olsen talvez fosse exagerado mas a tagaralice e indiferença de muitos prejudicou as canções que se queriam ouvidas a sério. Insultuoso;

3. apesar do respeito que temos por Rodrigo Leão e do projecto com Scott Matthew, a presença em final de tarde num dos palcos principais foi confrangedora. Tudo saiu ao lado, então a voz do tal Matthew... xii;

4. já não é primeira vez que acontece - primeiro dia já em pleno (19h00) mas não há pulseiras nem identificação no parque das bikes, casas de banho sem água, bares sem cerveja, etc. Inexplicável;

5. gostamos de coleccionar o programa/livro do festival onde são apresentadas as bandas/artistas, estamos até na disposição em adquiri-lo, mas aonde? Disseram-nos que vinham no interior da famosa mochila distribuída aleatoriamente mas na que "arrebanhamos"... nada. Há por aí alguém que lhe tenha posto a vista em cima?        

6. com todo o carinho por Elza Soares mas faltou "um peso-pesado" à altura da tradição (Patti Smith, Brian Wilson, Caetano, etc.). Pensar que já tivemos, por exemplo, Blur e Daniel Johnston no mesmo dia (2013)!

7. sem bairrismos bacocos mas "o gosto mais de Lisboa que do Porto" de Julien Ehrlich/Whitney em pleno concerto já não foi feliz mas as tentativas seguintes em tentar disfarçar o deslize ainda soaram piores;

8. o petisco portuense estava na ementa gourmet do festival? Francesinha, uma raridade e, já agora, cerveja preta;

9. com tanto WC disponível ainda há muitos e muitas que "descarregam" nos arbustos, árvores e afins. Enfim...;

10. o que é feito do Miguel Ângelo/Delfins um habitué que teve falta a vermelho. Sinal da fraqueza do cartaz?

sexta-feira, 16 de junho de 2017

THE CLIENTELE, CHEGOU A IDADE DOS MILAGRES!





















No primeiro dia de Outono, 22 de Setembro próximo, estará disponível um novo álbum dos The Clientele através da Merge Records, o primeiro de originais em sete anos. Com uma capa lindíssima da autoria da artista britânica Carel Weight (1908-1997), o disco foi baptizado de "Music  for The Age of Miracles" o que é, obviamente, uma dádiva nos tempos que correm e onde, para além das indispensáveis guitarras, a banda se envolveu ao longo de doze canções com uma orquestra de sopros e cordas e a utilização pela primeira vez de um saz turco e um santoor iraniano. Aqui fica "Lunar Days", uma primeira e facilmente reconhecível maravilha.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

SONGHOY BLUES+ELZA SOARES+WAND+THE GROWLERS+SHELLAC+MITSKI+METRONOMY+WEYES BLOOD+JAPANDROIDS+APHEX TWIN+TYCHO, Primavera Sound Porto, 10 de Junho 2017
















E ao terceiro dia, o festival já merecia um começo assim, animado, diferente, relaxante, isso mesmo, um tonificante para a última maratona que se adivinhava dura. A loção vigorosa veio do deserto do Mali, chama-se Songhoy Blues e foi distribuída a uma moldura apreciável de pessoas que responderam ao chamamento ritmado que, num ápice, se espalhou pelo relvado já menos frondoso do palco arboral. Um momento de partilha assinalável e inesquecível e, por isso mesmo, obrigatório em qualquer top de concertos da edição deste ano!



Quanto a Elza Soares, sentada no seu trono cimeiro, embora encoberta muitas vezes pela intensidade do sol, foi igual a si mesma - animada, desafiadora e até imperial nos apelos fortes contra a descriminação e violência sobre as mulheres ("mulher tem que gritar") ou na homenagem vincada à transsexual Gisberta assassinada brutalmente no Porto em 2005. Para todas as reivindicações serviu-se de uma mão cheia de canções enormes onde o samba, a bossa nova e a MPB se reinventam através de um notável conjunto de músicos e que teve resposta à altura entre a plateia acolhedora. Apesar de arriscada, a aposta estava ganha e a todos os pedidos da rainha de "quero gritos" vamos continuar a responder de bom grado "ahhhhhhhhhhhhhhhhh"!



Chegava a hora de uma primeira ronda por outros palcos mas logo na primeira paragem demos conta que em frente aos californianos Wand estava uma verdadeira multidão interessada e nitidamente satisfeita com o que ouvia. E o que soava não era de fácil descrição, uma jam psicadélica de camadas consistentes em que a guitarrada se afirma e eterniza em ondulações estranhas e que talvez explique, ou não, porque é que parte dos membros fazem parte dos The Muggers, a rectaguarda instrumental com que Ty Segall tem feito a festa desde o ano passado. Valeu!





Na descida para o palco principal batido pelo sol, a toada dos The Growlers servia de embalo a uma maioria espraiada na relva entre copos de vinho e cerveja, mas havia alguns, parecerem-nos muitos, que se ocupavam em desfrutar do momento de uma forma mais eficaz. Brooks Nielson continua imparável naquela atitude desmazelada de quem está ali só a passar um bom bocado não deixando o groove ir abaixo e a que lhe junta a sua voz nasalada a que ninguém fica indiferente. Um bom momento, na altura certa, mas a ronda tinha que continuar...



Torna-se quase obrigatório "marcar o ponto" num concerto dos Shellac, os totalistas do festival mas que nunca tocaram em nenhum dos principais cenários, cabendo-lhes desta vez em sorte e em pleno dia, fazer explodir o noise rock no parque mais retirado. Percebe-se a variação, mas o que é certo é que a adesão continua em alta e a banda, não se fazendo esquisita, repete a façanha como se fosse uma estreia. Concluímos, afinal, que tirando uma noite em Serralves, nunca chegamos a ver uma sessão do trio comandado por Steve Albini de princípio ao fim. Ainda foi não desta.



A questão das cotas artísticas para um evento com esta dimensão surgiu este ano em alguma imprensa. A primazia dada ao feminino no aquecimento do Hard Club indicia, aparentemente, que a organização concluiu que as mulheres tinham uma presença deficitária no alinhamento principal mas parece-nos que o assunto é supérfluo e sem sentido. Se foram poucas as eleitas para o Parque da Cidade, elas foram todas brilhantes sendo a japonesa Mitski mais uma prova que a quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade - excelente concerto de canções rudes e adultas de forte inspiração pessoal e de uma subtileza desafiadora. Ouçam bem "Jerusalem" no video abaixo!  



Já lá vão oito anos desde que os Metronomy passaram pela Casa da Música em formato trio, nos bons tempos em que o espaço portuense se dedicava ao pop-rock. Haveriam de voltar a Coura em 2011 já em começo de consagração e para o que associaram um baixista e um baterista a sério. Canções orelhudas como "The Bay", "Everything Goes My Way" e sobretudo "The Look" são, desde essa altura, verdadeiros clássicos dançantes e era deles de que todos estávamos à espera sem muitas demoras. Num alinhamento nada inocente, a colina rapidamente virou pista de dança e em pouco menos de uma hora os Metronomy alcançaram o pleno particularmente arrebatador quando se iniciaram os mais que conhecidos acordes do irresistível "The Look". Um concerto certeiro, sem rodeios e com a baterista mais sexy do mundo ou, quiçá, do festival!



Sem tempo a perder, na esperança que a menina Natlie Mering ainda estivesse à nossa espera, torneamos a multidão, aceleramos o passo e só paramos nas grades do palco Pitchfork onde Weyes Blood regressava ao norte do país. Seria um sacrilégio não tentar a sorte de ouvir ainda a sua voz e o esforço valeu-nos a felicidade de presenciar um pouco mais de dez minutos de excelência -  uma versão inebriante de "Vitamin C" dos Can (em Guimarães tinha sido "A Certain Kind" de Robert Wyatt) e esse monumento chamado "Bad Magic", sozinha com a guitarra e que por si só se tornou num dos momentos mais arrepiantes do festival. Memorável!



Depois de um reabastecimento rápido e a precisar de um abanão, nada melhor que os trinta minutos finais dos Japandrois. Rock clássico de bateria e guitarra em versão mais grosseira e descarnada que o punk tão bem soube usar, a dupla canadiana esteve em permanente curto circuito sonoro e sem nada a esconder, uma perfomance energética e irrequieta que marcava o final de tournée e que servia de descompressor para ambas as partes, público e banda. O power só foi desligado quando terminou a carga desse estimulante chamado "The House That Heaven Built" e Brian King deixou literalmente cair a guitarra...        



A dúvida, atendendo ao programa, estava em quanto tempo iríamos aguentar no concerto de Aphex Twin. Sem qualquer perspectiva sobre o que iria acontecer, o melhor seria procurar um local bem no meio do espectáculo para sentirmos efectivamente a validade do trabalho que o misterioso Richard James tinha preparado. Ficamos até ao fim, ou seja, duas horas! Não perguntem o porquê mas o conjunto de todas aquelas batidas abrasivas e experimentos sonoros aliados a uma espectacular sobreposição de luzes e imagens (se procuram as sátiras aos nossos socialites, políticos, artistas da bola ou do pimba, etc. elas estão no video abaixo ali a partir do minuto quinze) tornou-se de tal modo aditivo e alienador que, apesar de alguns momentos em que nos deu vontade de desistir, acabamos sempre a olhar para o palco e a simplesmente abanar o corpo. Um acto de resistência mas, ainda assim, recompensador.



E pronto, o festival caminhava para o fim mas o fim-de-festa tinha ainda uma agradável surpresa. Tycho, assim se chama o colectivo comandado pelo americano Scott Hansen, conseguiu encher a tenda com os seus instrumentais chillwave e um conjunto de imagens relaxantes que nos ajudou e de que maneira a "regressar à terra" e a mais uma vez sair do parque com um grande sorriso nos lábios. Até para o ano (7, 8 e 9 de Junho de 2018)!


JEREMY JAY+POND+WHITNEY+ANGEL OLSEN+NIKKI LANE+TEENAGE FANCLUB+BON IVER+HAMILTON LEITHAUSER+KING WIZZARD & LIZARD WIZARD, CYMBALS EAT GUITARS, Primavera Sound Porto, 9 de Junho de 2017
















A aclamada pop alternativa do norte-americano Jeremy Jay levou-nos ao palco arborizado do festival na esperança de ser surpreendidos mas o pouco entusiasmo que o próprio musico manifestou e a fraca adesão do público cedo deixaram adivinhar que o melhor seria ponderar a desistência...



Com os Pond no palco principal não havia que enganar. Os australianos são hoje uma forte certeza do chamado rock psicadélico embora neste último disco a vertente mais pop tenha ganho mais e força e, consequentemente, mais audiência. Para o confirmar bastava ouvir uma já larga maioria a soletrar as letras o que foi principalmente notório em "Paint Me Silver", um hino de verão mesmo à espera de rebentar. Nick Allbrook continua imparável e os Tame Impala que se cuidem que os parceiros e amigos estão cada vez melhores e em fase acentuada de crescimento!



Tínhamos no concerto dos Whitney um dos momentos mais aguardados do festival. O disco de estreia é uma jóia percorrida de fio pavio nos últimos tempos e foi bom ouvir a quase totalidade das suas canções neste fim-de-tarde soalheiro. Mas, haverá sempre um mas que impede a perfeição, seja porque a banda estava de directa à custa de atrasos nos voos, seja porque o alinhamento foi algo desequilibrado, seja até pela arriscada confissão de Julien Ehrlich em preferir Lisboa ao Porto, uma tirada que tentou disfarçar entre sorrisos amarelos e desculpas. Podia ter sido melhor? Talvez, mas ficamos satisfeitos.











Já lá vão quase dois anos que vimos Angel Olsen em Guimarães e, olá, esta é a mesma menina? Alguma dieta houve de certeza, retoques de imagem e beleza também e até a respectiva e aumentada banda vestida a rigor eram tudo sinais que Olsen está preparada para novos e altos voos que o último disco permitiu merecidamente alcançar. A forma como entrou em palco, uns bons momentos depois da banda e a forma com o antecipou a saída, demonstram ainda um cuidado na gestão de uma nova imagem artística que foi maturada e preparada de forma a elevar o sentido das suas excelentes canções. Depois de um início mais irrequieto com, por exemplo, "Shut Up And Kiss Me" e "Not Gonna Kill You" que envolveu até uma estranha dança de sapatos e sapatilhas entre o público (!), a onda passou a ser mais planante e calma, uma opção arriscada mas que, no nosso caso e apesar da tagarelice de muitos, soube muito bem. Então quando soaram os acordes mágicos de "Those Were The Days" com o sol a esbater... ui!



Antes do muito esperado concerto da noite, entre filas nunca vistas para matar a fome e a sede, da deambulação pelos palcos escolhemos uma espreitadela aos míticos Teenage Fanclub, opção agradável mas com uma adesão morna e onde o mais notado era satisfação de uma banda com quase trinta anos em estar ali naquele momento a tocar para tanta gente. Respeito!



A irrequieta Nikki Lane e a sua banda vieram de Nashville, trouxeram os chapéus típicos na cabeça e espalharam boa disposição à custa de uma categoria musical em desuso mas, talvez por isso, surpreendente - a country music! Grande voz, temas mais que oleados e energéticos, puseram a tenda a abanar e a festarola envolveu até um boneco insuflável que foi parar acima do palco por onde ficou a "descansar" até ao final, num dos momentos mais pândegos do festival. A prova que não há limites de géneros sonoros e que, se bem alinhados e escolhidos, resultam, como neste caso, na perfeição.



E pronto, chegamos ao muito aguardado regresso de Bon Iver à Invicta. Desta vez tinha à sua espera uma plateia imensa e em pulgas para poder cantar as suas canções e mostrar-lhe todo o afecto e devoção. Justin Vernon cedo percebeu essa pressa, agradecendo de forma recíproca a dedicação e as boas vibrações da cidade num concerto sempre em alto nível, com excelentes músicos e onde a primazia foi para o último disco que parece ser já um velho conhecido. Quando regressou para o encore, uma raridade por estes dias, e pegou na guitarra ainda suspiramos pelo "re-Stacks" mas saiu-nos o "Skinny Love" cantado em coro como se fosse a última vez. Às tantas foi mesmo!



Os extintos Walkmen, que já andaram por estas paragens, deixaram sementes frutíferas um pouco por todo o lado mas o jardim português parece, desde sempre, o mais acolhedor e, já agora, primaveril. Hamilton Leithauser, o seu saudoso vocalista, tem nos últimos anos apostado numa reinvenção artística que implicou o ano passado a colaboração com Rostam Batmanglij, teclista dos Vampire Weekend e cujo resultado foi um álbum inteiro de canções que serviram de principal ementa (exclusiva, quase, com excepção de "Alexandra") para o serão portuense. Bom gosto em doses recheadas quer nos temas quer nas imagens de fundo de palco, apesar de em Leithauser ter transparecido alguma má disposição e desconforto que se foram dissipando aos poucos mas para os quais, aparentemente, não haveria razões visíveis: tenda cheia, canções decoradas e cantadas por muitos e som sem reparos. Como última noite da tournée talvez se esperasse maior intensidade, mas, seja como for, gostamos muito.



Demorou algum tempo para que o PA desse de si com a totalidade dos King Gizzard & The Lizard Wizard em cima do palco à espera do tiro de partida. Resolvido o contratempo e baixada a bandeira, a corrida começou frenética com "Rattlesankes" naquilo que se tornaria numa imparável jornada sónica que muitos não vão esquecer. É quase insano perceber como é que duas baterias em simultâneo e sem falhas jogam e se aparelham com três guitarras desenfreadamente ao desafio e sem pausas, que por aqui não há faltas de gasolina, numa agitação que provocou caos controlado e um verdadeiro motim poeirento. A correria só haveria de parar com o magnífico "The River" lá para o fim, uma pérola raçada de bossa-nova e novo jazz que serviu para limpar o suor e à primeira oportunidade ir buscar uma cerveja já de luzes apagadas. Ufa, impressionante!





No caminho de volta e ainda atordoados encostamos às boxes/grades do palco Pitchfork para a despedida dos Cymbal Eat Guitars, local onde poucos se tinham refugiado. Para memória futura, aqui ficam um pouco mais dez minutos dessa presença... até amanhã!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

SAMUEL ÚRIA+CIGARETTES AFTER SEX+MIGUEL+ARAB STRAP+RUN THE JEWELS+FLYING LOTUS+JUSTICE, Primavera Sound Porto, 8 de Junho de 2017
















O melhor festival do país, mesmo com um cartaz arriscado e desequilibrado, é sempre um must e um desafio. O primeiro dia, contrariando o habitual, teve enchente notada logo ao descer pela primeira vez a colina de um dos principais palcos. Samuel Úria, bem disposto, ia desfilando algumas das suas boas canções como "Carga de Ombro"ou "É Preciso Que Eu Diminua", hinos a merecer coro colectivo nacional para admiração de uma massa estrangeira sorridente e já de copo na mão. Tudo acabou como deve ser com o indispensável "Teimoso" cujas palavras mereciam uma tradução simultânea para provar a todos como se deve escrever uma lírica e uma melodia de uma grande canção pop... eu nunca fui do prog-rock, amen!



A prestação dos Cigarettes After Sex num fim de tarde ao ar livre teve clima a condizer. Nada de sol que demasiada luz pode incomodar a onda levemente negra com que repetem uma receita que primeiro se entranha mas que rapidamente se esvaiu entre a neblina. Mesmo que um novo álbum esteja aí à porta, aguentamos vinte cinco minutos, o tempo certo para que o efeito fosse ainda proveitoso e de alguma utilidade retemperadora... a primeira cerveja!



O esticar do festival a novas gerações e públicos talvez tenha no nome de Miguel o exemplo perfeito. O nosso homónimo apesar de jovem tem já muito tarimba e manha para que a plateia se distraia entre danças em grupo, bracinhos no ar e muitos yeahs que, isto sim, é cool! Quanto à musica, entretida talvez seja o melhor adjectivo que encontramos para a descrever enquanto, já longe do palco, vamos petiscando a primeira dose sortida de especialidades da Padaria Ribeiro. Bem mais saboroso!



Os Grandaddy não comparecem, obviamente, mas vieram em boa hora os escoceses Arab Strap e a oportunidade não devia ser desperdiçada, um sacrilégio que uma geração como a nossa não devia cometer. Pelos vistos, muitos pecaram. Grande concerto, grande banda mesmo que reformada o ano passado, mas ainda e sempre notável na atitude e na entrega e onde Aidan Moffat em plena carburação - contamos pelo menos cinco latas de lúpulo num esfregar de olhos - foi rei e senhor entre os muitos britânicos presentes, mesmo sendo dia de eleições. A nós resta-nos fazer uma simples vénia, a noite estava ganha.



O fenómeno Run The Jewels começou a fermentar já lá vão dois anos no palco mais pequeno do festival. Na altura reclamou-se um cenário maior. Pois bem, melhor não podia haver e a expectativa entre as primeiras filas por onde nos quedamos algum tempo era, como dizer, nervosa. Vimos muitos a soletrar as respostas hip-hop e restantes trejeitos de fio a pavio ao mesmo tempo que saltar se tornava obrigatório. O duo prometeu uma blockbuster night e a recepção foi barulhenta e certamente intensa mas estava na hora de um spot mais calmo e panorâmico do parque da invicta, a melhor cidade do mundo segundo eles, segundo nós e segundo todos os outros.



Aparentemente, deveria haver uns óculos 3D distribuídos a preceito para a sessão de Flying Lotus. A santinha da casa que patrocina o evento bem nos ofereceu um género de binóculos descartáveis ao final da tarde que mandamos para o fundo da mochila e de que ainda tentamos o efeito! Agora a sério, grandes beats e samples, enormes os efeitos e desenhos especiais e bestiais mas os álbuns do génio californiano Steve Ellison para nós bastam como prova sonora. Uma boa experiência, já não foi mau.
 


Os Justice sempre dividiram opiniões mesmo para os não que viram pelo menos uma vez o documentário "A Cross The Universe". Estão sempre a tempo de o fazer. Talvez a maioria dos que aguardavam ansiosamente pela dupla francesa não queira saber de filmes ou argumentos já que a celebração aqui é outra e remete para o refrão de um dos principais hits da banda - "do the dance", simplesmente. O baile começou light e disco com "Safe and Sound" em versão longa misturada a preceito com o tal "D.A.N.C.E" para depois endurecer o electro aos limites enquanto o jogo de luzes, sem deslumbrar, se fazia notar. Chegados aqui, ou seja, ao muito aguardado "We Are Your Friends" a multidão agradeceu a dádiva mesmo sem saber que raios de instrumentos ou quejandos é que a dupla toca em cima do palco. Mas isso não interessa aqui e agora para nada...